Crime permanece um ano engavetado e nada se tem de concreto sobre a morte de Edmilson Alves

Railton Da Silva

O tempo biológico do ser humano passa rápido para uns e lento para outros, mas quando percebemos os dias já se foram. Há um ano era enterrado Misso após um atentado na madrugada do dia 22 de janeiro de 2016. A história de vida do sem terra e comunicador popular, Edmilson Alves da Silva, foi interrompida com 14 tiros na entrada do Assentamento Irmã Daniela; ela reflete um pouco da realidade de muitas outras linhas do tempo que foram e são tombadas neste país que só fazem alimentar uma estatística oficial e oficiosa.

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Crédito: Severino Carvalho/GazetaWeb

O crime foi explorado pela grande mídia e seus programas policialescos que tratou o caso como mais um homicídio diante dos outros sete que ocorreram no mesmo dia, ou, até mesmo, as demais 156 que ocorreram só no mês de janeiro em Alagoas; esses dados são as próprias estatísticas oficiais da Secretaria de Segurança Pública do Estado.

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Os homicídios, no campo e na cidade, são reflexos dos conflitos estabelecidos pela manutenção do poder, neste caso sobre a vida do outro, digamos que literalmente, mas por outro lado temos poucos resultados satisfatórios que apresentem respostas sobre as reais motivações do crime, além da elucidação com identificação dos autores material e de mando, e, o julgamento e sentença dos acusados, sem falar em outros processos que seria necessário um estudo só para relatar.

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Velório de Edmilson Alves realizado no Assentamento Irmã Daniela, mesmo local onde tombou. Crédito: Reprodução/GazetaWeb

As linhas de investigações sobre o caso Edmilson Alves são múltiplas e ainda só há a informação de que os autor do disparo estava acompanhado de outro que pilotava uma motocicleta. Não há informações das suas identidades e, muito menos, algumas pistas que aponte para a autoria de mando. As investigações são conduzidas pelo delegado Ailton Prazeres, da Delegacia Regional de Maragogi.

Essa morosidade até que já era de se esperar e quase sempre, como destaca Heloísa Amaral – da Comissão Pastoral da Terra à comunicadora popular Scarlett Duarte – os processos “normalmente são engavetados” e que apenas as pressões populares estimulam as autoridades darem uma celeridade nas investigações. “[…] Se alguém for fazer juridicamente uma pesquisa, vai ver uma quantidade imensa de casos, um percentual enorme engavetados”, destacou. [A entrevista com Amaral será publicada na continuação dos textos sobre os conflitos]

Em outubro de 2014, durante a imissão de posse do Assentamento Irmã Daniela, na cidade de Japaratinga,  tivemos a oportunidade de capturar uma fala do companheiro Misso onde ele falou sobre a sua luta e sua emoção da conquista após doze anos de luta pela Reforma Agrária no mesmo chão onde foi tombado. A entrevista foi gravada, depois digitalizar e estava guardada, porém nada mais oportuno para traze-la a tona, confira.

Fala de Edmilson Alves

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Selfie de Edmilson retirado em 31 de dezembro de 2014. Crédito: GritonaLuta

Cheguei por aqui em 2002, vivia acampado em um assentamento Nova Jerusalém, só que eu gosto de trabalhar; lá a terra era arreia e para mim não dava porque a gente plantava macaxeira, feijão não dava. Lá só é bom para quem trabalha com coqueiro, para quem sobe no coqueiro ou pesca na praia, só que eu não levo jeito para isso, foi quando eu disse ‘vou procurar um canto melhor’, o companheiro disse ‘o Arrepiado esta pegando gente, vai para lá’, aí eu vim para aqui e cheguei no dia 15 de agosto de 2002, aí cheguei aqui o cabra disse ‘se mudar no mês de agosto é ruim’, mas eu disse ‘com fé em Deus a gente dá certo’, viemos para aqui e até hoje deu certo.

Passamos por muitas dificuldades, quando a gente chegou por aqui tudo isso era cana, o pessoal colocava fogo nas canas; os barracos, era aqui nestes coqueiros que era capaz de queimar o barraco da gente. Aí um chegava e dizia ‘oxi a gente vai colocar os cabras pra tirarem vocês daqui amanhã’, a gente tinha hora que ficava com medo, eu não conhecia bem das coisas, fazia dois anos que eu tava na luta e não sabia ainda como era o começo da luta e eu dizia ‘eitha os caras vão tirar a gente daqui, vão tirar no cacete e agora’ e a mulé dizia ‘vamos correr logo enquanto é cedo’ e eu dizia ‘mais não, meu pai dizia que a gente só pode correr quando ver o bicho’.

Então a gente foi levando, começando a trabalhar, aí foi juntando gente, depois o coordenador que vivia aqui foi preso, aconteceu umas coisas com ele, aí o pessoal me convocaram para assumir os serviços, aí foi quando vim conhecer o companheiro Val o resto da direção, a companheira Marluce e todo o pessoal.

Já fazem 12 anos que estou aqui e depois que entrei no MLST foi um prazer enorme na minha vida, na verdade não conhecia quase nada. Foi um pouco difícil, mas ficou fácil porque a gente começou conhecendo as pessoas, também logo no começo foi um pouco de susto neh? Eu era acampado quando o pessoal dizia vamos fechar a pista eu ia também mais ficava por trás, agora não quando vamos fechar a pista o primeiro sou eu. Estamos aqui nestes 12 anos produzindo e mostrando a sociedade que temos coisas boas para mostrar, não temos recursos para trabalhar, mas estamos trabalhando.

O que tenho para dizer para as pessoas que veem os semterra como bandidos que é o seguinte, eles estão pensando enganado é bom eles participarem, estarem no meio para eles veem que tem, existe dos dois lados, existe bandido, mas também existe muitos cidadãos de bem.

E aqui é diferente, não é eu querendo passar, dizer que a nossa comunidade aqui ou porque vivo aqui dizer que é a melhor não, mas em outra região tem e existe sem terra de vergonha também, sem terra que quer trabalhar, que quer produzir, como nós aqui e outras regiões também.

O primeiro sinal do sem terra que você ver quando eles querem trabalhar é quando chega no canto e tem aí lavoura com bonança, bonança mesmo você olha aqui e diz nós temos lavoura, agora quando você chega no acampamento que só ver mato, só aquela bagaceira você já sabe que ali não tem futuro, mas com fé em Deus na nossa região aqui nós estamos trabalhando para alimentar a região.

Ser sem terra para mim hoje, que nem me ofereceram um salário de mil e quinhentos reais por mês para eu ir trabalhar, eu disse ‘rapaz eu não vou não, sabe porque, porque esse serviço é um contrato só de dois anos e depois que acabar o contrato o cabra esta na rua de novo’ e eu ia perder o meu direito de sem terra, porque fui trabalhar, você vai trabalhar vai ter compromisso com o trabalho e aqui não estou vendendo minha macaxeira, dando, todo mundo que chega e eu dou com prazer.

Quem não conhece o sem terra venha para o meio da gente, ou procure outro local que vai trabalhar e depois vai dizer a mesma coisa que estou dizendo que é um prazer muito grande para nós e para toda a sociedade. Hoje em dia a sociedade aqui, antigamente conhecia o sem terra como bandido. Hoje em dia a sociedade liga para a gente ‘iai, como esta as coisas por aí, nós vamos para aí, vamos para aquela bica do assentamento de vocês para tomar um banho. Estamos indo para aí conhecer a bica, tomar um banho, pode?’, ‘claro pode ficar a vontade pode ir para lá’, então isso para a gente é uma alegria.

Quem chamava a gente de bandido antigamente chegou até a gente e pediu ‘desculpa aê vice, eu olhava vocês antigamente, há cinco anos olhava vocês com uns olhos, hoje em dia eu abraço vocês’, quer dizer para a gente é orgulho muito grande.

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