“Rua Fechada” e práticas racistas da burguesia de Alagoas ao longo da história

Golbery Lessa

Em Alagoas, durante o século XVIII, com a primeira crise da economia canavieira, se consolidaram vários tipos humanos nos espaços para além dos estreitos domínios dos engenhos de açúcar. O vaqueiro espalhou-se pelo semiárido, vivendo sua engenhosa civilização do couro; os pescadores plantaram coqueiros, mandioca e colonizaram as praias e as lagoas, inventando a jangada e aperfeiçoando a canoa. Esses e outros personagens são expressões dos encontros entre população negra e população indígena, representam formas de produzir distantes do mercado externo e focadas nas necessidades locais. A partir do início do século XIX, com a retomada do crescimento da economia mercantil ao redor dos portos, o fortalecimento da burguesia comercial, via retomada da expansão canavieira e início do investimento no algodão, foi acompanhada de várias agressões estatais contra as populações negra, parda e indígena não interessadas em abandonar suas eficientes formas de produzir a vida e se transformarem em assalariados ou semiescravos.

Notícia de jornal da segunda década do século XX informa que, quando ocorriam tempestades muito fortes em alto mar, a praia de Pajuçara se enchia de famílias de pescadores esperando preocupadas o retorno dos seus entes queridos. Isto é, a praia de Pajuçara, séculos antes de o dono do bar Lopana clamar às autoridades pela segregação étnica e social, já era do povo negro e pardo, que a usava como moradia, espaço de pesca e ancoradouro. Já no século XIX, famílias da burguesia maceioense tinham grilado a região onde hoje estão os bairros de Pajuçara, Ponta Verde e Jatiúca, e tentavam submeter economicamente os pescadores por meio do monopólio legal da construção de currais de peixe.

No anos 1970, a prefeitura urbanizou a orla dessas praias e permitiu uma verdadeira corrida do ouro pela via tortuosa da especulação imobiliária mais descarada e fraudulenta. As antigas famílias grileiras embolsaram milhões em aliança com os novos ricos das construtoras e imobiliárias. Tentaram expulsar pela pressão econômica e simbólica o povo negro e pardo de seu território já ancestral. Mas parte significativa das comunidades de pescadores resistiu, passando a residir nas áreas menos valorizadas dos novos bairros da orla e continuando a usar as praias como espaços de pesca e ancoradouro. Além disso, essa resistência facilitou a entrada nessas praias, aos sábados e domingos, dos trabalhadores dos bairros populares próximos, que fizeram delas seus lugares privilegiados de seu lazer. Desse modo, a burguesia maceioense ganhou mais não levou. Fica nos apartamentos ou especula com eles, mas não usa as praias, pois sua cultura racista e antidemocrática não lhe permite usar os espaços de lazer nos quais pode encontrar os trabalhadores, principalmente os negros.

A implantação por parte da Prefeitura de Maceió da “rua fechada” na avenida principal da Pajuçara, como o próprio nome indica, é uma tentativa disfarçada da burguesia de, finalmente, conseguir expulsar os trabalhadores negros da praia. No início, a proposta parecia uma inofensiva exclusão dos carros por algumas horas em benefício do lazer das crianças. Posteriormente, ficou evidente que a verdadeira proposta é a de separar o lazer da burguesia do lazer das outras classes sociais, principalmente as classes trabalhadoras, notadamente seus estratos mais pobres e de cultura afro. O bar Lopana liderou a mobilização de intenção mais excludente, reivindicando o uso da polícia para promover de modo disfarçado o apartheid, porque, entre outras coisas, deseja, como outros estabelecimentos daquela área, continuar privatizando parte da praia, da calçada e até da avenida, como tem feito na prática há alguns anos, com a conivência de vários órgãos públicos. O Lopana e outros bares querem vender o sonho autoritário de uma praia burguesa e branca, onde os negros e trabalhadores estejam impedidos de entrar, mesmo que para isso se use a repressão policial. Pelo que vimos, estão expressando de modo pouco sutil o sonho dourado racista da burguesia maceioense.

Mas o troco virá na forma de luta em defesa dos direitos civis e de uma cidade sem apartheid. Assim como ocorreu no passado, a população trabalhadora e negra vencerá mais uma vez a batalha pelo uso de três praias que estão entre as mais belas do país. Já se mobiliza politicamente para impedir a intensificação do apartheid étnico e social naquela região. Invoca Zumbi, Dandara, os guerreiros cabanos, Tia Marcelina, Manoel Lisboa, Jaime Miranda e tantos heróis construtores das luta pela liberdade nas Alagoas. Se expressa nos coletivos de cultura, terreiros, movimentos sociais, associação de moradores e partidos políticos de esquerda. Dialoga com a sociedade civil progressista e o Ministério Público, critica a atual política de segurança pública e propõe o debate sobre um outro projeto de cidade, inclusivo, democrático, multiétnico e socialista.

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