“O veneno só veio empobrecer a nossa vida”

Quando cheguei à casa da Salete Bedin havia uma mesa coberta de biscoitos, feitos com o açúcar mascavo produzido por ela e muitas panelas já ferviam no fogão à lenha. Era uma manhã fresca de outubro, em Barra Bonita, a pequena cidade próxima a São Miguel do Oeste, interior de Santa Catarina.

Fomos apresentadas e eu segui adiante com Claudia Weinman, Julia Saggioratto, Paulo Fortes e Pedro Pinheiro ao encontro da irmã de Salete: Eledi Bedin. Queríamos contar a história de mulheres que viviam e resistiam no campo.

Pela estradinha de barro, Eledi vinha com o facão de cortar cana. Logo me mostrou o dedo com um corte e o sangue contido por um pedaço do tecido do casaco. Perguntei se não preferia conversar comigo no local em que estava trabalhando. Ela concordou e seguimos para a roça de cana, que ficava ali perto, num barranco inclinado.

Eledi me explicou que as folhas seriam usadas para alimentar os animais e com a cana seria feito o açúcar mascavo que, como quase tudo que elas precisavam, era produzido ali. Uma realidade que estava mudando e muitas famílias estavam começando a comprar os produtos no mercado.

– A melhor parte da nossa vida foi aquela que a gente achava que era a mais sofrida. Eu pegava no machado, no arado e na foice porque não existia trator, mas também não existia veneno, nem adubo. A gente trabalhava e colhia e era bem saudável. Podia ser mais sofrido, mas eu acho que o que mais prejudica é o que a gente come, e hoje ésó veneno e adubo. Fica até difícil tirar alguma coisa na roça para comer. Antigamente, a gente limpava o pocinho na vertente d’água para tomar, e quando tinha rabanetes, era só arrancar, dar uma limpada e comer. Hoje não dá mais… Eu tenho saudades daquele tempo, era bem melhor.

No dia seguinte, Claudia entrevistou na praça Belarmino Anoni, localizada no Centro de São Miguel do Oeste, Tairi Felipe, militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) de São Miguel do Oeste. Ele explicou que o atual modelo de agricultura, chamado de Revolução Verde, é baseado no uso de muitas substâncias sintéticas, como venenos e fertilizantes. “Desde 2008, o Brasil é o maior consumidor mundial de venenos, são entre 7 e 10 quilos por pessoa, por ano. Um negócio que movimenta entre 15 e 20 bilhões de reais por ano. Além de ir para os alimentos, essas substâncias vão para o meio ambiente”. Tairi afirmou que o Relatório do programa de resíduos de agrotóxicos, realizado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aponta que 29% dos alimentos estão contaminados com índices acima do tolerável, inclusive com agrotóxicos não permitidos para aquelas culturas.

Cada flor é um remédio

Depois do almoço com seus filhos Tayson e Taty, convidei Salete para conversar perto do jardim, onde fiquei sabendo que cada flor era um remédio.

– A semente é uma coisa preciosa e com o transgênico estamos perdendo muitas sementes. Aqui nos reunimos para salvá-las. Se o vizinho plantou o milho, nós temos que esperar uns cinco ou seis dias para plantar, para não contaminar a nossa semente com a transgenia. Muitos dizem que não conseguem viver sem os venenos, mas nós entendemos diferente. Depois que eles chegaram a nossa vida mudou completamente, muito para pior. A doença se implantou na nossa vida. Pode ter mais produção, mas o que adianta? Não posso mais plantar o milho, porque como eu vou limpar esse milho? Claro você coloca o veneno na terra, ele mata o inço, mas depois vem o dobro. Ele só veio empobrecer a nossa vida.

O tom sério não impedia o sorriso ao fim de cada frase.

– A produção sem os adubos e agrotóxicos é muito mais difícil e tem que ter um planejamento muito grande. O tomate é muito complicado, ele cria bichinho. Como você vai ter aquele tomate enorme para colocar na prateleira? Fica mais complicado, por isso tem que ter uma ajuda do governo para o agricultor se manter na roça sem os agrotóxicos. Porque eu posso perder toda a minha plantação. Eu dependo do tempo e do clima. E posso perder até a semente, como no ano passado em que eu perdi todo o amendoim, mas já ganhei e aquelas que eu salvei eu já dei para os outros.

15 agricultores envenenados por dia

O MPA e outras centenas de organizações estão realizando uma campanha contra o uso dos agrotóxicos e pela vida, denunciando o uso irracional de venenos para o público urbano, apontando os problemas ambientais, como o desaparecimento de abelhas e muitas espécies de plantas e animais, além dos problemas sociais provocados por esse modelo de agricultura.

Todos os dias, pelo menos 15 pessoas se envenenam com agrotóxicos, sem falar da intoxicação cumulativa, que demora até 15 anos para apresentar os sintomas. O câncer éo mais visível, mas têm outros como infertilidade, problemas hormonais, puberdade precoce e até problemas mentais, que atingem os agricultores e a população que mora nasáreas rurais e chega ao consumidor. “Queremos denunciar e propor alternativas, fazer a transição desse modelo para outro que conviva com o meio ambiente e produza alimentos saudáveis. A população urbana precisa se envolver e pressionar os governos”, alertou o militante, Tairi Felipe.

Reduzidos a trapos

Como tão bem explicou o padre Reneu Zortea, quando conversou comigo, também na praça Belarmino Anoni: “esse sistema capitalista é insuportável, degrada, destrói, adoece e mata. Dentro da lógica do capital nós fomos virando mercadoria o que interessa é o trabalho e o lucro. O melhor de nós é roubado, os direitos, o descanso, o lazer, nosso jeito de ser e de se relacionar. Além das pessoas, o planeta terra, a nossa casa também está adoecendo. Está na UTI! A consequência disso tudo é perda da auto estima, dos nossos princípios e dos valores. Para a grande mídia e para o capital nada disso interessa, somos trapos humanos jogados por aí. Somos levados a consumir o que vem, desvalorizando e destruindo o que a gente tem.”

Pequenos Agricultores organizados para garantir a sobrevivência

O Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) se organiza em Santa Catarina desde 1987, reunindo nas regionais de São Miguel do Oeste, Palmitos, Saltinho, Curitibanos e Papanduvas cerca de três mil famílias. Uma família campesina só sobrevive em comunidade e o MPA é o instrumento de organização que viabiliza a produção cooperada em pequena escala ou grande, como é o caso da Cooperativa Oestebio. O Movimento é também um instrumento de luta, que define os consensos e as reivindicações do campesinato. Ele também garante o acesso à informação não repassada pelos meios de comunicação, permitindo a compreensão das disputas que estão ocorrendo. O MPA também mobiliza os pequenos agricultores e realiza formação política.

Para o MPA, o modelo de agricultura camponesa é o mais viável por ter um impacto ambiental muito menor que o do Agronegócio. O modelo do campesinato é baseado na mão de obra familiar, não há assalariamento, a família comercializa o excedente da produção, que é diversificada, com enfoque na produção de alimentos e sem dependência tecnológica. O Movimento realiza o resgate e melhoramento genético de semente crioulas e varietais, principalmente através da Oestebio; processamento e distribuição de peixes,principalmente tilápias; produção de leite e hortaliças; e atualmente 1.400 famílias estão recebendo assistência técnica para a transição para a Agroecologia.

Imagem destacada: Claudia Weinman e Julia Saggioratto/Desacato.info

Fonte: Desacato.info

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