A “sensação térmica” da derrota

Ricardo Gebrim*

O golpe consumou-se com a votação final do impeachment da presidenta Dilma, mas para a maioria dos militantes e ativistas das forças de esquerda o sentimento de derrota abateu com profundidade após o resultado das eleições municipais. Tal qual o conceito de sensação térmica (que mensura a forma como nossos sentidos percebem a temperatura e não a temperatura real) para além dos resultados objetivos das urnas, pesou a capacidade dos grandes meios de comunicação em converter um esperado resultado desfavorável numa versão de “legitimação” do golpe nas urnas.

Diante de uma profunda derrota há armadilhas que costumam aparecer como soluções milagrosas. Uma delas é ignorar a gravidade do problema, buscando contorná-lo sem enfrentar suas causas ou lançar-se apressadamente para a primeira novidade que se aparenta como a iniciativa óbvia. Na história das forças de esquerda, tanto as revolucionárias quanto as reformistas, as derrotas profundas acarretaram, inúmeras vezes, em soluções fáceis.  Muitas vezes opera-se apenas a substituição de formas de luta, outras vezes acontecem guinadas políticas que não conseguem identificar a natureza dos erros ou, o que costuma ser o mais comum, apela-se para a criação de novas formas organizativas, que não rompem com métodos, princípios e valores do passado que se busca superar.

Identificar coletivamente os erros

O desafio real, que não é fácil de ser enfrentado, é realizar um debate coletivo que identifique construtivamente os erros e identifique os principais problemas que determinaram a derrota. Quando isso não é enfrentado ou é feito sem envolver o máximo de participantes de uma geração militante, qualquer iniciativa de superação – seja uma “frente”, um novo partido ou outra forma de organização política – longe de constituir-se na solução mágica, estará condenada a repetir o mesmo erro estratégico não identificado.

Para as direções políticas das forças populares, enfrentar esse desafio é uma questão premente, que se acelera com o forte sentimento de derrota que paralisa inúmeros lutadores populares. Embora existam várias outras iniciativas aglutinadoras da  esquerda, recai sobre a Frente Brasil Popular, por incluir as principais organizações políticas, sindicais e movimentos populares mais expressivos, a responsabilidade maior em enfrentar essa questão.

Ferramenta estratégica da unidade

Este é um desafio que não pode ser postergado, sob pena de assistirmos nos próximos meses o crescimento da pulverização da esquerda, buscando saídas organizativas para um problema político. Com a forte tradição eurocêntrica que marca a esquerda brasileira desde seu nascimento, não faltará os que queiram copiar o exemplo do “Podemos”, sem compreender que o sucesso dessa iniciativa na Espanha decorre muito mais do vazio pré-existente na esquerda do que de qualquer linguagem ou forma que tenha conseguido inovar.

Uma derrota estratégica, como a que estamos vivenciando, exige um responsável balanço coletivo. Este é o pressuposto necessário para avançarmos na unidade e retomarmos a disposição da militância.  Com isso avançaremos na identificação de nossos erros e poderemos avançar no enfrentamento de uma crise que é de prática, pensamento e valores.

É hora de construir a Frente Brasil Popular como uma ferramenta estratégica da unidade das forças populares, capaz de apresentar um projeto de país e de oferecer uma organização militante que renove a disposição de luta de milhares de lutadores e lutadoras profundamente abatidos neste momento.

* é da direção nacional da Consulta Popular, organização que integra a Frente Brasil Popular

Fonte: Brasil de Fato

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