Como um apagão em Nova York impulsionou o surgimento do Hip Hop

A formação dos traços da cultura Hip Hop esteve espalhada ao longo do século 20. Essa cultura abrange a dança, a música, o estilo de vestir e a identidade visual do graffiti.

Mas a década de 1970 foi particularmente decisiva nas origens do gênero. A cultura urbana de Nova York, a crise de gestão da cidade, a mistura racial do Bronx e os problemas sociais do bairro de população expressivamente afro-latina formavam um ambiente de tensões prestes a explodirem – fosse de revolta ou criatividade.

Embora desde o começo dos anos 70 já houvesse notícia da reputação emergente de alguns DJs e MCs pela cidade de Nova York, assim como das festas underground agitadas por eles, um obstáculo material impedia muitos aspirantes de se tornarem DJs: conseguir o equipamento de som necessário.

Se tornar DJ requeria pelo menos pick-ups, caixas de som, mixer e um acervo, ainda que mínimo, de discos de vinil. Esse suporte estava distante do poder aquisitivo dos jovens do Bronx.

Por isso, os furtos e saques cometidos em um apagão total vivido por todas as regiões da cidade, em 13 de julho de 1977, fazem parte do mito de origem da popularização do gênero. Jovens conseguiram seus primeiros equipamentos nas pilhagens às lojas sem energia elétrica.

É essa é a narrativa apresentada por vários personagens envolvidos no surgimento do Sip Hop, como o DJ Grandmaster Caz, do Bronx.  “Fui até o lugar onde comprei meu primeiro equipamento de DJ e peguei um mixer pra mim”, contou o DJ à revista “Slate”. “A oportunidade surgiu no blecaute. A diferença antes e depois era notável”.

Um cenário de crise em Nova York

A imagem moderna e glamurosa da Nova York de hoje pouco tem a ver com a devastação e o abandono que a cidade enfrentava nos anos 70. Inserida em um contexto nacional de estagnação econômica, a metrópole lidava com taxas de criminalidade recorde e uma crise fiscal que quase a levaria, em 1975, a declarar falência perante o governo federal.

Musicalmente, no entanto, a decadência impulsionava novos movimentos, como as cenas punk, disco e latina (com destaque para a salsa). Tudo acontecendo simultaneamente ao surgimento do Hip Hop.

Essas cenas encontravam-se distribuídas pelos “burroughs” nova-iorquinos, os cinco blocos que dividem a cidade. A região sul do Bronx, esquecida pelo poder público, começou a ver emergir dos “projects”, o modelo de habitação popular com uma estética própria.

Nos prédios devastados, abandonados e incendiados por gangues para que seus proprietários resgatassem o seguro imobiliário, o graffiti e a música eram formas de colorir o cotidiano com poucas perspectivas do bairro.

A disco music era o gênero dominante, na vida noturna da cidade e nas paradas da Billboard. Os DJs oriundos do Bronx começaram a trazer o funk e o soul para a ordem do dia, colocando as bases para o que se tornaria o Hip Hop.

Na crise geral da cidade e do país, a vulnerabilidade social do Bronx atingiu um ponto crítico. O blecaute de 1977 funcionou como um catalisador da insatisfação e do sentimento de desordem vivido pelos seus habitantes, que se traduziram na onda de furtos daquela noite de blackout. O bairro ficou mergulhado em uma escuridão que durou toda a madrugada e o dia seguinte.

O Blackout em números

3.700

pessoas detidas, pelo menos

1.616

lojas saqueadas

550

policiais feridos

1.037

incêndios

70.680

chamados de emergência

Antes do apagão, alguns nomes já eram conhecidos: os DJs Kool Herc, Afrika Bambaata & The SoulSonic Force (depois chamados de Zulu Nation), Grandmaster Flash & The Furious Five, Disco Wiz e Grandmaster Caz  e o Funky Four Plus One. A proliferação de DJs depois dele foi nítida, segundo Grandmaster Caz, que afirma que os furtos “fizeram surgir mil novos DJs”.

O apagão contado pela Netflix

Desde 12 de agosto, a Netflix tem disponível a série “The Get Down”, com os seis primeiros episódios da temporada de estreia. Com elementos factuais e de ficção, ela narra o surgimento do gênero musical no Bronx dos anos 70.

O blecaute é retratado exatamente como um ponto de inflexão na trajetória de um grupo de amigos que ambicionam se tornarem DJs e MCs.

Imagem destacada: Camilo Vergara /Reprodução

Fonte: Nexo Jornal

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